Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

For Sale!





Pessoal, como já mencionei aqui, o lançamento da antologia ASSASSINOS S/A, no sábado 04 de Julho, na Multifoco, lá no Rio de Janeiro, foi mesmo um sucesso. O evento contou com 10 dos 20 "assassinos". Infelizmente, eu não pude estar presente a festa.

Agora que o livro já está à venda, é só entrar em contato comigo. O exemplar custa R$25,00, (vinte e cinco reais). Atenção: para aqueles de fora de Itajaí tem ocusto do frete!

Quem mora aqui, em Itajaí, é só avisar que eu reservo um exemplar.

Vamos nessa, que em agosto tem mais! Se tudo correr como previsto, o diabo...digo, "Onde o Diabo Perdeu as Botas" será lançado!

Conto com vocês!

Domingo, 12 de Julho de 2009

É o amor!

















É o amor!

Ela acordou. Espreguiçou-se. Olhou pro lado e não vi ninguém, contudo na noite anterior havia sim, um jovem ao seu lado; Rafael. Um estrangeiro que ela conheceu num “big burger” qualquer na avenida dos teatros. Ela sabia que, mesmo pesando 140 quilos, ainda tinha seus encantos: “Os renascentistas me amariam...” Dizia, sempre mastigando alguma coisa. Não gostava de ser chamada de rechonchuda, gorducha, bolinha, nem pensar. Tinha lá seu direito, pensava. Rafael, foi o último amante até aquela manhã de domingo. Outros, todos estrangeiros era sua preferência: “Gente aberta.” Comentava, para justificar-se. Houve o George, americano, de Seatle. Sergei, russo de Moscou. Marcley... Bem, esse foi um pernambucano que apareceu junto com Oleg, outro russo, só que de Vladivostok. Rafael, parecia ser uma pessoa definitiva em sua vida, pensou enquanto coçava as costas com a ajuda de uma varetinha. Não porque Rafael fosse Italiano e com nome de gênio da pintura, mas por que ele era mesmo um pequerrucho gostoso. O que fazer, não se decidiu até amanhecer naquele domingo de sol brilhante. No quarto, procurou vestígios da noite incrível que passara. Não encontrou nada. Uma pena? Que nada. Não se lamentou apenas disse: “Ótimo! Melhor assim.”. Saiu pra deixar o lixo lá fora. “Estava tudo no lugar: vidro, papelão e papel e resto de comida... “Não!” Essa foi sua expressão ao ver um dedo; o “cata-piolho”, o mesmo de apontar pros que a chamava de “baleia”! Então, com um ar entristecido exclamou: “Perdoe, pequeno Rafael, pensei que ia lhe comer todinho.” Saiu direto pro parque para enterrar aquele dedo, começo de tudo.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Terapêutica mudança.



David permanecia deitado. O divã ele conhecia há mais de sete anos. Seu corpo já havia se acostumado com as ondulações da espuma, provocadas pelo peso da paciente que o antecedera nas análises.

Naquela manhã , doutor Greenwald havia chegado tarde e o encontrara deitado, dormindo. David dormia o sono dos justos. Era a primeira vez que isso acontecia depois de muitos anos. Ele sofria de insônia crônica. Dormir foi um milagre!

Doutor Greenwald aproveitou para se mudar. Seu trabalho com David havia terminado. Fez toda a mudança dos móveis do consultório e deixou David lá, deitado, no velho divã.
A mudança foi um sucesso e doutor Greenwald comemorou.

Sábado, 4 de Julho de 2009

E-Blogue!


"Atenção blogueiros!

Está no ar o zine virtual E-Blogue.com (
http://e-blogue.com/blogs), um espaço voltado única e exclusivamente para a produção artística que usa a internet como principal ferramenta de divulgação.
Envolvendo, a cada edição semanal, cerca de dez artistas de diferentes áreas, o E-Blogue.com mistura literatura, fotografia, desenhos, música, HQs, vídeos, uma pitada de ousadia e uma proposta muito clara: encontrar tudo o que merece ser encontrado na web.
Mas ainda não foi.
Segundo Jana Lauxen, uma das e-ditoras e fundadoras do portal, “existe muita gente boa produzindo e publicando na internet um material incrível. Escritores, desenhistas, músicos, fotógrafos que ainda não encontraram seu espaço nesse mercado tão atulhado e confuso, recorrem à internet para divulgar e até mesmo comercializar o seu trabalho. O problema é que, neste palheiro virtual, muitas vezes os bons se perdem em meios aos médios. Nossa intenção é encontrar os bons”.
Além do zine semanal, o E-Blogue.com ainda envia, todo mês, seu Zine-Mail, com os trabalhos mais comentados das quatro últimas edições.
Por isso, fica o convite aos blogueiros, artistas e arteiros de plantão: o E-Blogue.com tem a ousadia e a pretensão de provar por A + B que a internet também nos reserva grandes e agradáveis surpresas.
E por falar nisso: o que você tem para mostrar? "

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

FAQ: Hélio Jorge Cordeiro


FAQ: Hélio Jorge Cordeiro (inspirado no FAQ: Felipe Damo*)

Por que você escreve?
- Ora, porque não encontro outra coisa pra fazer e porque aprendi desde pequeno. Aliás, foi a Professora Dona Corina que me fez escrever a primeira frase: “O Vovô viu a Uva”
Não pensa em publicar?
- Não, não penso, por porque já publiquei e estou publicando. Quem pensa só pensa, né?
Você foi um dos criadores do CLAP*. Como foi a experiência?
- Não, nunca fui. De onde você tirou essa idéia?
Quem nasceu primeiro, o CLAP ou o Sarau Benedito*?
- Essa é muito boa. Como vou saber, cara?! Vai perguntar pros caras, meu!
Você escreve desde quando?
- Desde quer fui alfabetizado, cara. Sabe aquela coisa: B-A, BA, B-E, bé, B-I, B-O, bó...Já falei que quando a Professora Dona...Ah, cê já sabe!
Quais autores te influenciaram mais?
- Nenhum. Num sou e nem nunca fui influenciado por quem que quer seja, amigo.
Você prefere escrever poesia ou crônicas?
- Ih, cê errou de novo! Hehehe! Nenhum, nem outro.
O amor é um tema recorrente em seus textos…
- Cê tá de brincadeira, né?!
Quais são os planos pro futuro próximo?
- Acabar com isso o quanto antes e beber um chop, de preferência sozinho. Fui!
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*Felipe Damo, é jornalista, poeta e crônista, de Itajaí, SC.(
http://felipedamo.wordpress.com)

*CLAP: caderno literário, nascido na cidade de Itajaí, SC, e editado por poetas, músicos, romancistas, crônistas e jornalistas locais. Ah, já colaborei com alguns contos meus na referida publicação, assim como, já participei do Sarau Benedito.

*SARAU BENEDITO: Sarau literário, nascido também em Itajaí, pelos mesmo criadores do CLAP.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Assassinos S/A


Finalmente, saiu o release e o convite da antologia ASSASSINOS S/A, da editora Multifoco, do Rio de Janeiro. Estou entre os vinte autores que fazem parte desse livro, fato que me orgulha, pois fomos escolhidos entre mais de quinhentos inscritos, segundo a editora, Jana Lauxen. Depois anuncio quando e onde o livro estará disponível. Ah, estou nessa antologia com o conto A Festa de Aniversário.


Domingo, 28 de Junho de 2009

Indignação






















Aqui vai um artigo da escritora e cronista, Jana Lauxen, gauchinha da maior qualidade e criatura cabeça da blogosfera. A guria externa, de forma direta, através de sua escrita, toda a sua indignação com a demonstração de racismo que aconteceu, recentemente, no Mineirão no jogo entre Grêmio e Cruzeiro.

"MACACO

Por Jana Lauxen

Quarta-feira de noite teve jogo de futebol com time do Rio Grande do Sul. Era o Grêmio, disputando a primeira partida da semifinal da Libertadores contra o Cruzeiro. Perdeu, por 3 x 1.

Fato corriqueiro e que, de jeito nenhum, mereceria um post neste blog, não fossem dois personagens que inverteram toda a história e importância deste jogo.

Ninguém falou na derrota de um nem na vitória de outro, tudo porque Maxi López, jogador gremista e argentino, chamou Elicarlos, cruzeirense e negro, de macaco, durante o segundo tempo da partida.

Assim que deixou o campo, Elicarlos encontrou o microfone de um repórter e desabafou: estou indo agora para a delegacia fazer uma denúncia contra o hermano racista.

E foi mesmo.

Louvado seja Elicarlos.

Porque é muito importante que, sempre, sempre, SEMPRE que formos alvos de preconceito ou presenciarmos alguém sendo, colocar a boca no trombone e mandar ver.

Não dá para engolir e muito menos acreditar que, em pleno ano de Obama no poder e Copa das Confederações na África do Sul (com seus discursos e cartazes anti-segregação racial) absurdos deste tipo aconteçam por aí, impunemente.

O racismo é estúpido, é nojento, é repugnante, além de ser feio, muito feio!

A pessoa que ainda não entendeu que a cor da pele é apenas e nada mais que a cor da pele, deveria ser proibida de sair na rua.

Deveria até ser proibida de existir.

Mas não.

Elas podem existir, podem sair nas ruas e podem até se tornar ídolos do futebol, como é o caso do nosso querido amigo Maxi. Que, como todo bom preconceituoso, tratou logo de se defender dizendo que “o que é dito dentro do campo deve ficar dentro do campo” e, para arrematar: nem sabia o que significava a expressão macaco.

Disse que não disse, e que tudo não passou de uma “má interpretação” de Elicarlos, o ofendido. Me engana que eu gosto, el manézão.

E sabem vocês por que duvideodó que Maxi não sabia o que significava a expressão macaco? Porque os gremistas têm a tradição milenar de chamar os colorados (do Internacional, time rival aqui no sul) de macaco.

Sim, é fato.

Eu mesma, que sou quase transparente de tão branca, já precisei ouvir tal desaforo, e só não fui para a delegacia também porque o delegado certamente iria rir da minha cara branca.

O Grêmio – e isso não sou eu quem está dizendo, é a história – quando surgiu, em meados de 1903, era um time de elite onde negro não entrava.

É verdade, verifiquem os anais se estão duvidando.

Não podia, era proibido.

E foi só por causa disso que surgiu o Internacional: para que os negros, mulatos e pobres em geral que pipocavam Brasil afora pudessem ter um time para chamar de seu.

Desde aí vem o termo: macaco, macacada, macaquinho.

O Beira-Rio até ganhou o carinhoso apelido de macacódromo.

“Nós, os brancos. Vocês, os pretos”.

Mas, é claro, nos dias de hoje o discurso oficial do Grêmio é outro: somos contra a segregação, somos contra o racismo, somos contra o preconceito, veja bem, temos até jogadores negros em nosso time.

E realmente, têm.

O que não torna, de maneira nenhuma, aceitável o fato de que um dos jogadores, um ídolo do time, um alemão aguado com cara de quem comeu e não gostou, saia por aí chamando seus colegas de campo de macacos.

Por isso, estou com Elicarlos e não abro.

Acho que não somente ele, mas todo mundo que anda sobre este chão, tem o direito e, acima de tudo, o dever de frear estes impulsos racistas que, vez em quando, saltam boca afora de branquelos mal educados e sem noção.

É preciso denunciar, vaiar, fazer um gritedo.

Enquanto nós, os bons, ficarmos calados diante de injustiças deste porte, eles, os ruins, continuarão a se vangloriar de sua pele alva e seus olhos estupidamente azuis, achando-se, realmente e comicamente, superiores.

Em tempo: antes que me atirem aos leões, gremistas de todo meu querido Rio Grande do Sul, saibam que eu sei que nem só de Maxis López se faz o time do Grêmio. Entendo isso, e entendo muito bem.

Mas juro que gostaria de entender também porque Maxi foi o jogador mais aplaudido quando desceu no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ontem de tarde. Digam-me, meus caros: o que vocês aplaudiam?"

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O Morto de Borges




Enquanto ando atolado com problemas pessoais e relacionados a editoração de meu livro ONDE O DIABO PERDEU AS BOTAS, resolvi preencher este espaço com um excelente conto do escritor e pensador argentino Jorge Luis Borges. O referido texto me foi enviado pelo meu caro amigo historiador, Miguel Angel Rodriguez, um dos idealizadores do Grupo de Estudos e Discussão em Filosofia (filosofia_em_debate@grupos.com.br).



O MORTO

Por Jorge Luis Borges


Que um homem do subúrbio de Buenos Aires, que um triste compadrito sem mais virtude que a enfatuação da coragem, se interne nos desertos eqüestres da fronteira com o Brasil e chegue a capitão de contrabandistas, parece de antemão impossível. Aos que assim o entendem, quero contar o destino de Benjamín Otálora, de quem talvez não reste nenhuma lembrança no bairro de Balvanera e que morreu, a seu modo, de um balaço, nos confins do Rio Grande do Sul. Ignoro pormenores de sua aventura; quando me forem revelados, hei de retificar e ampliar estas páginas. Por ora este resumo pode ser útil.


Benjamín Otálora conta, por volta de 1891, dezenove anos. É um rapagão de fronte pequena, de sinceros olhos claros, com o vigor dos bascos; uma punhalada feliz revelou-lhe que é homem valente; não o inquieta a morte do adversário, tampouco a imediata necessidade de fugir da República. O caudilho da paróquia dá-lhe uma carta para um tal Azevedo Bandeira, do Uruguai. Otálora embarca, a travessia é tormentosa e rangente; no outro dia, vagueia pelas ruas de Montevidéu, com inconfessada e talvez ignorada tristeza. Não encontra Azevedo Bandeira; pela meia-noite, num armazém do Paso del Molino, assiste a uma discussão entre alguns tropeiros. Um punhal rebrilha; Otálora não sabe de que lado está a razão, mas o atrai o puro sabor do perigo, como a outros o baralho ou a música. Segura, no entrevem, uma punhalada baixa que um peão desfere contra um homem de chapéu escuro e de poncho. Este, depois, resulta ser Azevedo Bandeira. (Otálora, ao sabê-lo, rasga a carta, porque prefere dever tudo a si mesmo.) Azevedo Bandeira, embora robusto, dá a injustificável impressão de aleijado; em seu rosto, sempre demasiado próximo, estão o judeu, o negro e o índio; em sua afetação, o macaco e o tigre; a cicatriz que lhe atravessa a face é mais um adorno, bem como o negro bigode cerdoso.


Projeção ou erro do álcool, a disputa cessa com a mesma rapidez com que se produziu. Otálora bebe com os tropeiros e depois os acompanha a uma farra e depois a umcasarão na Cidade Velha, já com o sol bem alto. No último pátio, que é de terra, os homens estendem os arreios para dormir. Obscuramente, Otálora compara essa noite com a anterior; agora já pisa terra firme, entre amigos. Inquieta-o algum remorso, isso sim, de não sentir saudades de Buenos Aires. Dorme até as seis, quando o desperta o paisano que, bêbado, agrediu Bandeira. (Otálora se lembra de que esse homem participou com os outros da noite de tumulto e de alegria e que Bandeira o sentou à sua direita e o obrigou a continuar bebendo.) O homem lhe diz que o patrão o manda buscar. Numa espécie de gabinete que dá para o vestíbulo (Otálora nunca viu um vestíbulo com portas laterais), Azevedo Bandeira o está esperando, com uma clara e desdenhosa mulher de cabelo ruivo. Bandeira examina-o, oferece-lhe um copo de aguardente, repete que ele parece um homem corajoso, propõe-lhe ir ao Norte com os demais para trazerem uma tropa. Otálora aceita; de madrugada, estão a caminho, rumo a Tacuarembó.


Começa então para Otálora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que têm o cheiro do cavalo. Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos. Otálora criou-se nos bairros de carreteiros e quarteadores; em menos de um ano se torna gaúcho. Aprende a montar, a entropilhar o gado, a carnear, a manejar o laço que subjuga e as boleadeiras que derrubam, a resistir ao sono, às tormentas, às geadas e ao sol, a tanger com o assobio e o grito. Só uma vez, durante esse tempo de aprendizado, vê Azevedo Bandeira, mas o tem muito presente, porque ser homem de Bandeira é ser considerado e temido, e porque, diante de qualquer gesto valente, os gaúchos dizem que Bandeira o faz melhor. Alguém opina que Bandeira nasceu do outro lado do Quaraí, no Rio Grande do Sul; isso, que deveria rebaixá-lo, obscuramente o enriquece de selvas populosas, de lamaçais, de inextricáveis e quase infinitas distâncias. Aos poucos, Otálora entende que os negócios de Bandeira são múltiplos e que o principal é o contrabando. Ser tropeiro é ser um criado; Otálora propõe-se ascender a contrabandista. Dois dos companheiros, numa noite, cruzarão a fronteira para voltar com algumas partidas de aguardente; Otálora provoca um deles, fere-o e toma seu lugar. Move-o a ambição e também uma obscura fidelidade. “Que o homem”, pensa, “acabe por entender que tenho mais valor que todos os seus orientais juntos”.


Outro ano passa antes que Otálora regresse a Montevidéu. Percorrem os arredores, a cidade (que a Otálora parece muito grande); chegam à casa do patrão; os homens estendem os arreios no último pátio. Passam os dias e Otálora não vê Bandeira. Dizem, com temor, que ele está enfermo; um homem moreno costuma subir a seu dormitório com a chaleira e o mate. Uma tarde, encarregam Otálora dessa tarefa. Ele sente-se vagamente humilhado, mas também satisfeito.


O dormitório é desmantelado e escuro. Há uma sacada para o poente, há uma longa mesa com uma resplandecente desordem de chicotes, de relhos, de cintos, de armas de fogo e de armas brancas, há um remoto espelho de cristal embaçado. Bandeira está de boca para cima; sonha e se lamenta; uma veemência de sol último o define. O enorme leito branco parece diminuí-lo e obscurecê-lo; Otálora observa os cabelos brancos, a fadiga, a debilidade, as rugas dos anos. Revolta-o que esse velho os esteja mandando. Pensa que um golpe bastaria para dar conta dele. Nisso, vê no espelho que alguém entrou. É a mulher de cabelo ruivo; está meio vestida e descalça, e o observa com fria curiosidade. Bandeira recompõe-se; enquanto fala de coisas da campanha e bebe um mate atrás do outro, seus dedos brincam com as tranças da mulher. Por fim, dá licença a Otálora para ir embora.


Dias depois, chega-lhes a ordem de irem para o Norte. Param em uma estância perdida, situada em qualquer lugar da interminável planície. Nem árvores nem um arroio a alegram, o primeiro sol e o último a golpeiam. Há currais de pedra para o gado, que tem grandes chifres e está necessitado. EI Suspiro é o nome desse pobre estabelecimento.

Otálora ouve na roda de peões que Bandeira não tardará a chegar de Montevidéu. Pergunta por quê; alguém esclarece que há um forasteiro agauchado que está querendo mandar demais. Otálora compreende que é um gracejo, mas lhe agrada que esse gracejo já seja possível. Verifica, depois, que Bandeira se inimizou com um dos chefes políticos e que este lhe retirou seu apoio. Ele gosta dessa notícia.


Chegam caixões de armas longas; chegam uma jarra e uma bacia de prata para o aposento da mulher; chegam cortinas de intrincado damasco; chega das coxilhas, numa manhã, um cavaleiro sombrio, de barba cerrada e de poncho. Chama-se Ulpiano Suárez e é o capanga ou guarda-costas de Azevedo Bandeira. Fala muito pouco e de maneira abrasileirada. Otálora não sabe se atribui sua reserva a hostilidade, a desdém ou a mera barbárie. Sabe, isso sim, que para o plano que está maquinando tem de ganhar a amizade dele.


Entra depois no destino de Benjamín Otálora um alazão de extremidades negras, que Azevedo Bandeira traz do sul e que ostenta arreios chapeados e carona com bordas de pele de tigre. Esse cavalo liberal é símbolo da autoridade do patrão e por isso o cobiça o rapaz, que chega também a desejar, com desejo rancoroso, a mulher de cabelos resplandecentes. A mulher, os arreios e o alazão são atributos ou adjetivos de um homem que ele aspira a destruir.


Aqui a história se complica e se afunda. Azevedo Bandeira é hábil na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar gradativamente o interlocutor, combinando seriedade e brincadeira; Otálora resolve aplicar esse método ambíguo à dura tarefa que se propõe. Resolve suplantar, lentamente, Azevedo Bandeira. Consegue, em jornadas de perigo comum, a amizade de Suárez. Confia-lhe seu plano; Suárez lhe promete sua ajuda. Muitas coisas vão acontecendo depois, das quais sei algumas poucas. Otálora não obedece a Bandeira; dá para esquecer, corrigir, inverter suas ordens. O universo parece conspirar com ele e apressa os fatos. Num meio-dia, ocorre em campos de Tacuarembó um tiroteio com gente rio-grandense; Otálora usurpa o lugar de Bandeira e comanda os orientais. Uma bala atravessa-lhe o ombro, mas nessa tarde regressa a EI Suspiro no alazão do chefe e nessa tarde umas gotas de seu sangue mancham a pele de tigre e nessa noite dorme com a mulher de cabelos reluzentes. Outras versões mudam a ordem desses fatos e negam que eles tenham acontecido em um único dia.

Bandeira, entretanto, continua sendo nominalmente o chefe. Dá ordens que não se executam; Benjamín Otálora não toca nele, por um misto de rotina e de pena.

A última cena da história corresponde à agitação da última noite de 1894. Nessa noite, os homens de EI Suspiro comem cordeiro recém-carneado e bebem um álcool pendenciador. Alguém infinitamente zangarreia uma trabalhosa milonga. Na cabeceira da mesa, Otálora, bêbado, ergue brinde atrás de brinde, em júbilo crescente; essa torre de vertigem é símbolo de seu irresistível destino. Bandeira, taciturno entre os que gritam, deixa que flua clamorosa a noite. Quando soam as doze badaladas, levanta-se como quem se lembra de uma obrigação. Levanta-se e bate com suavidade à porta da mulher. Ela abre em seguida, como se esperasse o chamado. Sai meio vestida e descalça. Com uma voz que se afemina e se arrasta, o chefe lhe ordena:

– Já que tu e o portenho se querem tanto, agora mesmo vais dar um beijo nele, à vista de todos.

Acresce uma circunstância brutal. A mulher quer resistir, mas dois homens a tomam pelo braço e a lançam sobre Otálora. Arrasada em lágrimas, beija-o no rosto e no peito. Ulpiano Suárez empunha o revólver. Otálora compreende, na iminência da morte, que o traíram desde o princípio, que foi condenado à morte, que lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo porque já o davam por morto, porque para Bandeira ele já estava morto.

Suárez, quase com desdém, abre fogo.